Página inicial do sítio > Informação > Artes e Letras > Teresa Mota : Portugueses de Diáspora

Teresa Mota : Portugueses de Diáspora

Brilhar na sombra

segunda-feira 22 de Outubro de 2007, por Susana Paiva

Todas as versões deste artigo : [français] [Português]

Não gosta de dar entrevistas e cultiva o anonimato, estatuto antagónico ao com que, há 44 anos, saiu de Portugal rumo a França. Hoje, aos 66 anos, Teresa Mota não é apenas memória da jovem e talentosa actriz que marcou o teatro português nas décadas de 50 e 60 mas também uma respeitada académica cuja paixão pela escrita e pelo teatro nunca abandonou.



Os amigos são peremptórios acerca da generosidade e devoção que Teresa Mota põe em todas as relações que preza. Louvam-lhe a discrição, a modéstia e sabedoria, enaltecendo as suas qualidades humanas e profissionais pois estão certos que ela própria nunca o faria. Solicitar a Teresa que fale de si é tarefa difícil resultando normalmente na valorização daqueles que lhe são mais próximos – o seu filho, Emmanuel Demarcy-Mota, jovem encenador que tem visto o seu trabalho consagrado nos meios teatrais português e francês e João Mota, seu irmão dois anos mais novo, reconhecido actor e encenador que nos tem brindado com uma carreira teatral e educativa plena de sucessos.

Há muito que Teresa optou pelo anonimato, posicionando-se na sombra que lhe permite “estar atenta às pessoas de quem se gosta”. Talvez o reconhecimento artístico precoce, protagonizado da infância à jovem adultez, tenha moldado o caracter da criança que, aos 6 anos, com a sua mãe, avó e irmão trocou a pacatez da sua terra natal pela capital nacional.

Da infância recorda a paradisíaca vida em Tomar, marcada pelas regulares idas ao teatro local, onde viu os primeiros espectáculos e filmes, e ao café Paraíso - ambos propriedade da sua família – bem como pelas tertúlias que o seu tio-avô materno promovia. Da mudança para Lisboa reteve a luminosidade da grande casa alugada pela mãe na frondosa avenida Marquês de Tomar e que marcou o início de uma nova vida para toda a família. Recorda-se dos sábados em que corria para casa na ânsia de ouvir o programa infantil de Maria Madalena Patacho na Emissora Nacional, o mesmo com o qual, algum tempo depois, viria a colaborar. Com 10 anos, concluída a escola primária em S. Sebastião da Pedreira, escreve uma carta a Maria Madalena Patacho manifestando o seu interesse em participar nas emissões e, pouco tempo depois, passado um concurso promovido pela Emissora Nacional, inicia uma longa colaboração com a rádio. Ao longo do trabalho com Madalena Patacho a voz de menina foi dando lugar à timbrada e agradável voz de adolescente com que Teresa Mota interpretou múltiplos personagens dos folhetins radiofónicos do “Teatro das Comédias” dirigidos então na Emissora Nacional por Álvaro Benamor.

Foi ainda enquanto adolescente que protagonizou um dos primeiros programas infantis da televisão portuguesa – “as cartas do tio João (e da sua sobrinha Teresinha)” – onde juntamente com Gustavo Fontoura respondia às cartas dos jovens telespectadores. É, aos 16 anos, como “Teresinha” que Teresa Mota, propulsionada pela visibilidade e sucesso dos primeiros anos da televisão, se vê catapultada para o estrelato. Uma visibilidade que ainda hoje recorda como assustadora e que a impedia de ser uma menina como as outras, dado ser regularmente reconhecida na rua e solicitada para autógrafos.

Apaixonada desde sempre pelo teatro, cujo desejo atribui à necessidade de conversar com um pai ausente, Teresa Mota não hesitou em escrever a Amélia Rey Colaço - então à frente da companhia Rey Colaço-Robles Monteiro residente no Teatro Nacional -, manifestando o seu desejo de ser actriz. Uma acção decisiva que marcaria o início de uma longa colaboração, iniciada com a participação em dois espectáculos ainda enquanto estudante liceal e que culminaria, findo o liceu Maria Amália e a convite de Amélia Rey-Colaço, na integração durante 4 anos do elenco permanente da companhia.

Foi, em 1961, sob a alçada de Amélia Rey-Colaço que Teresa Mota, então com 20 anos, viu reconhecido a sua interpretação em “Romeu e Julieta” de William Shakespeare com o prémio da crítica. Uma distinção que levaria Mário Casimiro Cortesão e a própria Amélia Rey-Colaço a aconselhar a intérprete de “Julieta” a ir para o estrangeiro aprender o máximo possível. Encorajada pelos seus mentores, Teresa Mota parte então em 1963 para Paris onde, com uma bolsa de estudo da Fundação Calouste Gulbenkian, frequenta o curso teatral de René Simon no “Centre Dramatique de la rue Blanche”, inscrevendo-se também na licenciatura de “literatura estrangeira” da Sorbonne, universidade onde mais tarde viria a realizar o seu doutoramento subordinado ao tema “o conto e o teatro”.

Vivendo há 44 anos em França e desde 1993 professora agregada da Sorbonne Nouvelle/ Paris III, com a especialidade de língua e teatro, Teresa Mota construiu um universo pessoal onde teatro e ensino se entrecruzam. Foi fundadora na década de 60, juntamente com o seu marido Richard Demarcy, do “Naif Theatre”, a companhia teatral na qual, durante mais de 25 anos, foi co-criadora de todos os espectáculos. Actriz, encenadora, estudiosa, professora, mulher, mãe – tudo actividades que Teresa Mota se orgulha de ter desenvolvido, discretamente e na sombra como é seu apanágio.

- Texto publicado na edição de Novembro 2007 da revista “Magazine Artes”
- Texto e fotografias de Susana Paiva
- Imagens das obras gentilmente cedidas pelo artista
- www.susanapaiva.com

Susana Paiva

www.susanapaiva.com

3 Mensagens de fórum

  • Teresa Mota : Portugueses de Diáspora

    3 de Fevereiro de 2008 03:31, por Manuel

    É fantástico encontrar assim, inesperadamente, a Teresinha do programa que, nos inícios da televisão em Portugal, por volta de 1958 ou 59, todos os domingos eu seguia no café lá da terra. Não haverá por aí uma foto desse tempo? Seria engraçado rever a Teresinha e o Tio João . A propósito: quem é que fazia de Tio João? Que será feito dele?
    Só é pena que a Teresa Mota cultive o anonimato. É algo que merece respeito mas onde talvez haja algum exagero. Afinal hoje ninguém a reconheceria na rua, e ter sido o encanto de tantos miúdos que dela ainda hoje, por certo, se recordam, dos tempos heróicos da televisão, não é nada que envergonhe. Eu cheguei a visitar os estúdios do Lumiar em 1969 e fiquei espantado com o modo artesanal como tudo era feito. Dez anos antes nem consigo imaginar como seria.
    E querem saber como cheguei aqui? Esta noite em Coimbra, o salão nobre da Câmara abriu para um concerto de Carnaval dedicado aos munícipes pela Orquestra Clássica do Centro dirigida pelo maestro Virgílio Caseiro. Um sucesso de arromba! Pois neste concerto, foi tocada uma peça que servia de abertura a outro programa, neste caso da rádio, que, também nessa época, aos sábados à tarde, a pequenada não perdia, na Emissora Nacional: a "Meia hora de recreio" da Maria Madalena Patacho. Onde passavam os episódios das extraordinárias aventuras de "Os cinco" de Enid Blyton. E nem vos digo da emoção dessas emissões, em que, através de efeitos especiais, o vento uivava, as portas chiavam e batiam, os fantasmas falavam com vozes de pôr os cabelos em pé, os cascos dos cavalos se ouviam a galope, e o fogo crepitava excitando a nossa imaginação infantil, como hoje já não é possível.
    Pois neste concerto foi apresentada a música que servia de abertura a esse programa; música que ainda recordo e hoje, 5o anos depois, soube, finalmente, ser a "Parada do soldadinho de chumbo" de Leon Jessel. E foi assim que, de site em site, cheguei aqui e encontrei a Teresa Mota. Digam lá que a Internet, isto de sentir o mundo pulsar na ponta dos nossos dedos, não é uma coisa maravilhosa?

    • Teresa Mota : Portugueses de Diáspora 28 de Outubro de 2008 11:52, por JCoelho

      ...quando corria com os outros putos para a sede do Grupo Desportivo do meu Bairro para voar nas asas do sonho que era ser criança, para ver a meia hora mágica que permanece no meu imaginário, vem-me há ideia um poema de Fernando Pessoa, que... - Raiva de não ter trazido o passado roubado na algibeira!... - Que saudades eu tenho da maneira como eu via o Mundo e dos sonhos que tinha. Eras tu "Teresinha", a namorada de todos nós, lenitivo das noites a luz do candeeiro a petróleo, das idas ao chafariz, aos Anjos, à sopa, etc. etc.
      Obrigada Teresinha.

  • Teresa Mota : Portugueses de Diáspora

    8 de Janeiro de 2009 21:44, por Rogério do Carmo

    RÚSTICA

    Deus criou transparente a Primavera
    E ela pôs-se logo toda a esvoaçar
    Na tua boca pôs o mel dos meus desejos
    Fonte cristalina brotando beijos
    E teu corpo macio toda à minha espera
    Rosas perfumadas para o vento desfolhar!

    No horizonte pintou o sol e a chuva
    E no árido chão que um dia dera uva
    Fez o vinho novamente derramar!
    Nos verdes campos do Minho
    Dobou-me um branco lenço de linho
    Para eu de longe te acenar!

    Abriu-me uma mina de estanho
    Para eu pastar meu o meu rebanho
    Para o meu rebanho pastar!
    E as minhas mãos escoriadas
    Rudes rugosas e tisnadas
    Para o sol as abrasar!

    Acendeu-me uma tosca lareira
    Para eu rever a minha vida inteira
    Na rubra labereda a crepitar!
    Fez toda minha a tua cama
    Na minha boca pôs a tua mama
    E no longo branco travesseiro
    O teu cabelo ainda por desatar!

    De par em par abriu-me todas as janelas
    Polvilhou-me o céu todo de estrelas
    E nos teus olhos fê-las todas cintilar!
    E quando teus olhos cerraste
    A desviar o grito que não ousaste
    Teus óvulos puseram-se todos a ovular!

    A teu lado toda a noite ouvi os grilos
    E no manso sono dos esquilos
    Deixei a noite lentamente macerar…

    E quando cedo o galo cantou
    Na fresca manhã que me acordou
    Corri todo nú ao rio me lavar!

    E as águas do meu rio trepidante
    Fizeram do meu corpo seu amante
    E levaram-me lá longe desaguar!

    Rogério do Carmo
    Paris, 1/7/1990

    Este foi o poema que Teresa Mota, sublimemente, disse um dia à antena da Rádio Alfa, no programa Bica e Copo de Àgua, ante os meus olhos aturdidos, nessa inesquecível tarde...
    Gostaria tanto de reencontrar a eresa Mota... Por onde andará ela? Sabe ela que a nossa querda amiga comum, Maria Eduarda já deixou este mundo de amarguras?

    Se alguém souber do pararadeiro da Teresa, gostaria tanto que lhe pedisse para ela entrar m contacto comigo, por mail:carmopat@dbmail.com

    Grato por isso!

    Rogério



PortugalVivo

Tous droits réservés (Portugal Vivo®) Ce site ainsi que sa charte graphique sont protégés par un copyright© international qui interdit toutes reproductions mêmes partielles.
La société Portugal Vivo® est habilitée à poursuivre toutes personnes morales ou physiques violant le copyright©
Dans le cadre de la revue de presse, Portugal Vivo utilise des articles ou photos dont il nâ€â„¢est pas lâ€â„¢auteur. Ces éléments restent la propriété de leur auteur. Portugal Vivo cite systématiquement le journal source avec un link vers celui-ci.
Mentions Légales : PORTUGAL VIVO - 102 avenue des Champs Elysées, 75008 Paris - France | SARL au capital de 15.000 ââ€Å¡¬uros - R.C.S. Paris B 441 119 286 | Représentant Légal : Jorge Loureiro | email : net@portugalvivo.com