De entre os escritores que, embora não nascidos no Porto, aqui viveram e o retrataram, destaca-se Ilse Losa. Alemã, nascida em Osnabrück, mercê da ascendência judia e das suas posições anti-hitlerianas, viu-se obrigada, em 1934, a procurar refúgio entre nós.
Frequentadora dos círculos artísticos e literários da época, viria a casar com o arquitecto Arménio Losa, adquirindo a nacionalidade portuguesa.
Em 1943 publicava o seu primeiro livro, "O Mundo em que vivi", iniciando uma actividade que, durante mais de meio século, afirmou - em prosa de primeira água, fazendo inveja a muito bico careta que por aí pontapeia a nossa língua -, uma voz original e límpida. Além de livros dedicados às crianças, Ilse foi uma cronista brilhante e romancista fina e rigorosa, que nos legaria obras essenciais para a compreensão do Porto do séc. XX, visto com os olhos de um estrangeiro culto.
O romance "Sob céus estranhos (1962)" tornar-se-ia referência da literatura sobre a cidade, constituindo o retrato do clima provinciano do universo portuense que a autora soube decifrar com enorme perspicácia. O período do pós-guerra vivido pela classe média tem aqui um execelente documento, útil à compreensão de uma época em que não existem muitos testemunhos ( e excepção é "A praça de Liège", de Rebordão Navarro) com a qualidade estilística e a segurança narrativa de um grande escritor.
Vendo bem, os lugares deste romance não existem e eram assim. As situações de um ambiente incongruente na sua bizarra humanidade são nossas conhecidas. Muitos personagens estão do nosso lado, sabemo-los de cor por os vermos todos os dias."Sob céus estranhos", mais do que um livro autobiográfico sobre o quotidiano em que a autora se viu obrigada a inserir-se (apesar de tudo, protegida da barbárie nazi), é, assim, referência fundamental à constituição do clima social do Porto do final dos anos 40.
Destacaria também "Caminhos do destino" (1991), repositório de contos e novelas onde encontramos vários registos das lembranças de infância na Alemanha, realidade distinta mas ainda nítida, a passagem por Inglaterra, a topologia dos lugares sem tempo num espaço indefinido, e o Porto, cidade de exílio/acolhimento/reencontro de formas de viver (sobreviver?).
O Porto surge umas vezes subentendido (na rua, no rio, na paisagem, no prato da feijoada, numa frase ou palavra que definem o território). Outras vezes aparece metamorfoseado em figuras de um cenário conhecido (a Idalina, mulher a dias, a Palmirinha, costureira a dias). Rostos habituais no Porto, que também se apresenta na evidência de certo topónimo, assinalando os limites de uma narrativa por vezes encantadora, cuja modernidade constitui prova da maturidade de uma escrita depurada.
E realçaria ainda "A Flor do Tempo", o livro dos anos 50 de crónicas na Imprensa. A temática escolhida é a Alemanha (lugar de origem), o Porto (lugar de exílio), e a literatura (lugar de encontro de pátrias cruzadas). A cidade dos anos 50 e 60 surge em apontamentos leves e tranquilos. Lampejos de uma realidade fragmentada que a maioria junta em episódios triviais de que passamos a ser intervenientes. Ao estarmos lá, no Café Sport ou no Majestic, com Augusto Gomes, Camarinha, Alvarez Losa e outros. Ou no Rivoli, visto da Pensão da Dona Julieta. Ou a viver o Natal tripeiro, na consoada de bacalhau com batatas. Ou ao entrarmos na Primus, ao encontro de actores e poetas Eugénio, Ramos de Almeida, João Guedes, Egito, Dalila Rocha.
Organizada pelo Pelouro da Cultura da Câmara do Porto esteve patente na Galeria do Palacete Balsemão, em Carlos Alberto, uma meritória exposição de homenagem a Ilse Losa. Sob a designação de "Sob céus estranhos" apresentava a bibliografia da escritora nas bibliotecas municipais da cidade. Apoiada num catálogo que constitui matéria de consulta, a exposição permite a apreensão da obra de uma autora que pertence ao nosso património cultural. Como não era notícia da arruaça política, da corrupção, do escândalo do jet-set de um país maltratado, esta tão simples quanto excelente exposição sobre uma personagem notável não mereceu os tempos de antena e letras da imprensa dados à patologia cívica. Foi pena e lamentável, mas como diz o outro "Vivemos numa época moderna".