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Pedro Castanheira : "Portugueses de diáspora"

Encontrar a própria voz

segunda-feira 20 de Agosto de 2007, por Susana Paiva

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Pouco mais do que um ano foi quanto bastou a Pedro Castanheira – compositor e intérprete – para compreender que a sua diáspora estava prestes a terminar. Após 14 meses em Paris, Pedro regressou a Lisboa com o mais precioso de todos os bens - a autoconfiança necessária para assumir profissionalmente o seu trabalho musical.


Quando, em Outubro de 2005, Pedro Castanheira abandonou Lisboa, rumo a Paris, perseguindo o sonho de se profissionalizar como músico, pouca experiência de palco tinha. Na bagagem levava pouco mais do que a sua licenciatura em sociologia, recentemente concluída, e a sua preciosa guitarra. Em Portugal havia frequentado a escola de Jazz do Hot Clube mas não antevia grandes possibilidades de se profissionalizar enquanto músico.

Assim que pode, concluído o trabalho final de curso, partiu à procura de algo que sabe hoje ter sido a expressão da sua individualidade musical.
Chegado a Paris cedo compreendeu que a vida da cidade era bastante diferente do que inicialmente pensara - o meio musical era bastante fechado e o nível de exigência muito elevado.

Não obstante todas as dificuldades Pedro não esmoreceu. Entregou-se à composição, actividade que antes exercera timidamente e fez das adversidades – uma certa formalidade dos franceses e a dinâmica por vezes trituradora de uma grande cidade como Paris – a sua fonte de inspiração.

No final de 2005, com a companhia de Benoit Crauste, nos saxophones, Nicolas Bongrand, no trombone, Deniz Fisek, no baixo, Ian Carlo Mendoza, nas percussões, e Matthieu Dorbec, na bateria, fundou o “Project Dunga”, assegurando ele próprio a guitarra, o piano, a flauta e o canto.

Com este projecto, “à procura das suas próprias raízes, misturando o máximo de cores e de sons”, que sempre “recusou etiquetagem” integra o colectivo “Pavé Jazz”, uma associação de músicos de jazz e músicas improvisadas, onde testa verdadeiramente as suas capacidades como compositor e performer perante plateias que se foram revelando receptivas e progressivamente amistosas.

Nos seus concertos, repartidos entre França, Alemanha e Portugal, encontrou a forma “tribal” com que acredita que a música deve ser partilhada. Verdadeiros rituais de celebração, os espectáculos do Projecto Dunga rapidamente conquistaram o respeito do público e criaram uma corrente interessante para um grupo cuja musicalidade, longe de ser mainstream, assentava num “subtil cruzamento do jazz e dos ritmos afro-brasileiros”. Durante os espectáculos Pedro Castanheira aprendeu a metamorfosear-se e se, fora do palco, alguma timidez ou insegurança existiu esta era agora, perante o público, transformada numa poderosa força de comunicação.

No dia 8 de Dezembro de 2006, o Projecto Dunga fez a sua última apresentação no l’Antirouille, em Paris, imediatamente antes de Pedro Castanheira e Ian Carlo Mendoza regressarem a Portugal para abraçarem um novo projecto musical. No início de 2007, cerca de um mês após o regresso de Pedro e Ian a Lisboa, o Projecto Dunga era formalmente extinto.

Hoje, aos 27 anos, e regressado de Paris há pouco mais do que 6 meses, Pedro Castanheira confessa-se muito surpreendido com Lisboa e com os músicos excepcionais que aí encontrou nos últimos 4 meses. Pensa que a cena musical portuguesa mudou muito nos últimos anos e que o seu enriquecimento muito se deve aos intercâmbios culturais realizados ao abrigo de projectos como o “Erasmus”.

Quando regressou, juntamente com Ian Carlo, em busca “das suas musas” e da inspiração se sempre vai buscar ao mar, trazia apenas projectos para o “Colectivo Páscoa”, um dos cinco projectos musicais em que se encontra actualmente envolvido. A esse projecto inicial que define como sendo de “Jazz mutante” ou de “Rock pós-regressivo” juntaram-se, desde que chegou a Lisboa, o “Yemanjazz” – um projecto de “world wide jazz” - , o “Projecto Iara” – com o qual realiza “concertos performativos de sonoridades tradicionais globais” - , o “Chulage” – promovendo o “hip-hop e spoken word” – e o “Projecto Almagreira” que Pedro gosta de definir, com a habitual poética, como um projecto de “música de embalar, sonhar e acordar na beira do mar”.

Hoje sorri quando diz “não ter tempo para a angústia existencial urbana” que por vezes o assolava em Paris. A multiplicidade e heterogenidade de projectos em que se encontra envolvido são a sua maior força motriz que de momento não lhe deixa “muito espaço para respirar”. “Cresce-se muito a tocar estilos diferentes. É uma esquizofrenia muito saudável”, afirma feliz.

Tem consciência que o tempo que passou em Paris foi essencial para a sua afirmação musical. “Vim de Paris músico, saí de cá sonhador e voltei músico sonhador”, afirma sorridente. “De qualquer forma é sempre mais difícil sair da casca em casa”.

Em Paris, graças ao nível de exigência dos músicos locais viu-se obrigado a trabalhar com disciplina e rigor e sabe hoje que isso em muito contribuiu para o seu crescimento e afirmação musical. Acredita que de momento “talvez seja mais fácil viver da música em Lisboa do que em Paris” e que a tranquilidade e o custo de vida nacional continuam a ser vantagens a ponderar. Além disso acredita que há de momento em Portugal “um novo movimento do Jazz”, com “novos circuitos”. Circuitos que permitem “quebrar a barreira entre o músico que toca na rua e o que toca no conservatório”, “desmistificando certos géneros de música considerados intelectuais.”

Na sua actual agenda não tem mãos a medir e, embora ainda seja muito cedo para tirar conclusões, parece agora fazer-se luz sobre os benefícios dos difíceis meses passados em Paris. E, pensando bem, talvez esse não tenha sido um preço demasiado elevado a pagar se isso significou encontrar a própria voz.

- www.myspace.com/yemanjazz
- www.myspace.com/colectivopascoa
- www.myspace.com/projectoalmagreira
- www.myspace.com/projectoiara

(Artigo publicado na Magazine Artes de Maio 2007, revisto em Junho 2007)

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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