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Nuno Cera : "Portugueses de diáspora"

Nos interstícios da imagem

quinta-feira 30 de Agosto de 2007, por Susana Paiva

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Usando filme, fotografia e desenho, Nuno Cera desenvolve uma obra artística resultante das suas experiências vivenciais onde as diferentes áreas se constituem como um único e singular corpo de trabalho. Aos 35 anos, 5 dos quais vividos no estrangeiro, o artista utiliza a memória e a arquitectura como matérias priveligiadas do seu trabalho, procurando expressa-las nos interstícios das diversas práticas artísticas.


Há muito que o desejo de viajar se instalou na vida de Nuno Cera. Em 1997, 4 anos após iniciar a sua actividade artística, em entrevista ao jornal “A Capital” afirmava que gostaria de sair de Portugal pois sentia “necessidade de ter outro tipo de experiências e alternativas ao que acontecia no país bem como de ter uma outra perspectiva e relação com Portugal”. Depois, felizmente, surgiu-lhe a possibilidade de realizar duas residências artísticas - uma, durante um ano, em Berlim e outra, durante sete meses, em Nova Iorque - que viriam a alterar profundamente o seu trabalho, “relativisando a escala de Portugal, e fazendo-o crescer enquanto artista e pessoa”.

Desde há bastante tempo que desejava viver em Nova Iorque e a bolsa conjunta da Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) e da Fundação Luso-Americana para o Desenvolvimento (FLAD) permitiu-lhe, em 2005, satisfazer esse sonho. Foi uma experiência que Nuno ainda hoje descreve como “muito boa em relação a contactos e oportunidades” e que, em 2006, lhe “permitiu a participação em duas exposicões colectivas, bem como o desenvolvimento de um projecto para video com um artista canadiano” mas que, apesar de tudo, o fez “sentir que Nova Iorque não era o local onde queria viver”.

Para habitar Nuno acabou por escolher Berlim, cidade onde havia chegado, no final de 2001, para a realização de uma residência artística na Kunstlerhaus Bethanien, com uma bolsa da FCG. Inicialmente não gostou da cidade, achou-a muito cinzenta e escura, mas a verdade é que passado algum tempo, com naturalidade, começou a adorar Berlim.

Mesmo sabendo ser uma residência artística uma forma artificial de vida, que muitas vezes nos afasta de uma vivência normal da cidade, o certo é que, acabada a residência na Kunstlerhaus Bethanien, Nuno Cera não ponderou a hipótese de regressar a Portugal. Decidiu ir ficando por Berlim graças às condições que a cidade lhe oferecia, sobretudo a nível de tempo e de espaço – “tempo para trabalhar, para se concentrar, e espaço de trabalho e habitação a valores acessíveis”. Uma combinação fundamental para quem “gosta muito de ter tempo para pensar, para fazer os seus projectos, os seus desenhos”.

Hoje reconhece que foi em Berlim que encontrou as condições para ser “artista a tempo inteiro”, graças às condições excepcionais proporcionadas pela bolsa João Hogan, da FCG. Foi aí, na cidade que caracteriza como tendo “uma qualidade de vida muito boa, com imensa natureza, imensos museus e galerias” que encontrou o espaço de planificação do seu trabalho em super 8 que viria a marcar uma nova fase na sua obra. O seu primeiro trabalho nesse suporte foi um filme sobre Berlim feito com a técnica de “frame by frame” (fotograma a fotograma), um projecto entre fotografia e filme. “Berlin – a super- 8 movie” - que se poderia traduzir como uma visita vertiginosa aos seus espaços de vivência e memória - abriu caminho à realização de outros filmes mais experimentais, reflexo do seu fascínio por uma certa cinematografia dos anos 70, “mais concretamente o Giallo e o horror italiano (Dario Argento, Mario Bava, Lucio Fulci e do espanhol Jesus Franco), o eurotic horror (Jean Rollin) e mais recentemente o ultra violento Gore Asiatico, tudo géneros que foram sempre considerados trash ou marginais”.

Hoje Nuno Cera afima-se criador de “um sistema de visualização resultante de experiências visuais e temporais, pesquisa, paisagens, visões de lugares, luz, movimento, natureza, pequenas acções, não-lugares, beleza, horror, arquitectura, pessoas e cidades”, utilizando simultanea ou complementarmente a fotografia, o filme e o desenho como formas de expressão artística.

Nos seus trabalhos, fruto de uma metodologia conceptual - onde partindo de um certo conceito desenvolve o projecto - ou mais “casual”- onde a organização do material previamente existente é feita à posteriori-, Nuno Cera revisita frequentemente as mesmas temáticas - pontuadas por uma certa solidão e nostalgia - embora o seu trabalho esteja em permamente mutação formal e estética. Afirma que “nunca foi artista de fazer sempre a mesma coisa” pois há coisas que “apenas o interessam pontualmente”. Na exposição “Fantasmas”, apresentada no Centro Cultural de Belém, até ao passado mês de Fevereiro, sobressaía uma ideia de evolução no seu trabalho sendo os visitantes surpreendidos não apenas pela original instalação das obras no espaço mas também pelas suas “Cosmogonias”, desenhos a tinta da China onde “ponto por ponto a tinta constrói sobre o papel paisagens, atmosferas, densidades”. “São momentos peculiares – e ímpares – no seu trabalho: a preocupação com a imagem e com o movimento parece suspensa e o desenho surge como local de paragem, de contemplação e contenção, escreveu Nuno Crespo, comissário da mostra, no catálogo da exposição. Para o autor “o desenho revelou-se uma coisa paralela, um processo de criação completamente diferente onde se coloca a problemática do final da obra. Em fotografia não existe esse problema”.

Foi na práctica do desenho que Nuno Cera encontrou um espaço de terapia, de tranquilidade” onde a obra é construida a uma velocidade muito diferente da fotografia e do filme.

Na sua produção actual “tem sucedido ter uma ideia para um vídeo e na altura da rodagem fazer paralelemante uma série de fotografias” dado o seu interesse em “explorar a forma como a fotografia e o vídeo podem transmitir a mesma ideia”, interessando-lhe sobretudo “aquilo que fica entre os dois” - esse interstício inter-prácticas.

Enquanto apresenta, em Panzano (Itália), na exposição colectiva “Panzano Republic” - “um trabalho que vive da tensão e confronto entre passado e presente; o século XXI versus o seculo XV”, sera também possível, ainda este mês, ver o seu trabalho em Portugal, no âmbito da exposição colectiva “JCE - Jeune Creation Europeénne”, uma exposição inaugurada na Áustria, e já apresentada na Lituânia, Italia, França e Espanha, acabando agora a sua itinerância no Museu Amadeo de Souza Cardoso, em Amarante. Uma excelente oportunidade para revisitar a obra deste artista que embora pense “ficar mais um tempo em Berlim” acredita que “esse ciclo se vá fechar” ou não estivesse “sempre presente a ideia de que mais tarde ou mais cedo voltaria a Lisboa”.

(Trabalho publicado na edição de Junho 2007 da revista “Magazine Artes”)

- Texto de Susana Paiva
- Imagens gentilmente cedidas pelo artista

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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