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Joana Saahirah : Portugueses de Diáspora

O apelo da dança oriental

terça-feira 11 de Março de 2008, por Susana Paiva

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Aos 27 anos, a portuguesa Joana Saahirah é um dos nomes mais bem sucedidos e respeitados do circuito da Dança Oriental e do Folclore Egípcio.


Tendo trocado definitivamente Lisboa pelo Cairo, cidade onde diariamente deslumbra o heterogéneo público que assiste aos seus espectáculos, vai edificando a passos seguros e com muita paixão a sua carreira internacional como bailarina oriental.

A forma fascinante e cativante como Joana - tal como é simplesmente conhecida no meio profissional egípcio - fala da sua profissão não deixa margem para dúvidas - a dança oriental, prática que casualmente descobriu há sete anos atrás, tornou-se a paixão da sua vida.

As primeiras memórias do seu corpo enquanto corpo que dança remonta aos 4 anos de idade, altura em que por aptidão Joana iniciou os estudos em ballet clássico, mas a sua vocação como bailarina teria que esperar 16 anos para se revelar quando, em 1999, Joana tomou contacto com a dança oriental egípcia ao participar num workshop temático no âmbito do Festival “Andanças”. Na época era aluna do curso de Teatro da Escola Superior de Teatro e Cinema e imaginava-se profissionalmente enquanto actriz quando, com alguma surpresa, descobriu a facilidade e naturalidade com que o seu corpo assimilava e interpretava a música oriental, acabando por alterar os seus planos futuros.

Concluída a licenciatura como actriz na Escola Superior de Teatro e Cinema, em Lisboa, e consciente de que havia encontrado, na dança oriental, “a sua linguagem” Joana optou por fazer formação em “Dança do Oriente” e percussão árabe com vários professores, solidificando depois os seus conhecimentos com Shokry Mohamed, em Madrid. Mais tarde rumou ao Egipto onde consolidou a técnica com alguns dos mais consagrados bailarinos e professores nacionais e internacionais entre os quais Souhair Zaki, Raqia Hassan, Mona Gareb, Mona El Said, Aida Nour, Mahmoud Reda e Yousry Sharif.

Das 15 viagens que realizou entre 2000 e 2004 ao Egipto, para observação e formação na área, ficou-lhe a convicção de que a aprendizagem só seria completa se conseguisse residir e trabalhar enquanto bailarina no Cairo, cidade unanimemente considerado pelos especialistas como a “Meca da Dança Oriental”.

Assim, em 2005, após 3 anos de trabalho em Portugal em torno da dança oriental, decide instalar-se no Egipto onde começa por viver intermitentemente dado a existência de uma lei que impedia bailarinas estrangeiras de dançarem profissionalmente em território nacional. Inibida de assinar contratos de trabalho no Egipto, Joana começa então a actuar profissionalmente no Líbano, Qatar e Oman, iniciando assim uma carreira de sucesso no Médio Oriente.

Em Abril de 2006, ao abrigo de uma nova lei que lhe permitia trabalhar no Egipto, Joana fixa definitivamente residência no Cairo, cidade onde “se sente verdadeiramente feliz” e onde hoje diariamente actua com a sua orquestra egípcia.

Tendo compreendido que “a Dança Oriental é interpretação pura”, Joana cedo sentiu a necessidade de aprender a falar árabe, algo que acabou por acontecer naturalmente dado o contacto permanente com a língua. Hoje reconhece que preferia ter aprendido o idioma de forma mais académica dado que o árabe que fala é sobretudo uma língua funcional, um dialecto do Cairo muito ligada ao universo do trabalho e profundamente imbuído da gíria dos músicos com que convive diariamente.

Actualmente, uma das poucas estrangeiras que actua diariamente no Cairo, Joana Saahirah continua profundamente apaixonada e dedicada à dança oriental apesar de reconhecer que é necessário ser-se física e psicologicamente muito resistente para se conseguir sobreviver numa profissão assombrada por tantos estigmas. Ser “estrangeira, mulher e bailarina” num país onde a exposição corporal da mulher em público está associada à ideia de prostituição, e sendo a dança oriental – vulgarmente designada por “dança do ventre” – uma das artes performativas socialmente mais condenadas, não transformam o quotidiano de Joana “num mar de rosas”.

“É um país onde é difícil ser bem sucedido, onde mais do que ser boa bailarina é necessário amar aquilo que se faz” frisa Joana enquanto me elenca os inúmeros obstáculos com que diariamente se depara. “É uma área em que, devido à enorme concorrência, tens que estar sempre a 100%, mesmo quando sujeita a grande pressão quotidiana”, acrescenta.

Numa cidade como o Cairo, em que o caos, corrupção e burocracia consomem muita energia, Joana tenta usar o inevitável cansaço a seu favor, fazendo com que o mesmo se traduza, em palco, no desvanecer da tensão normalmente associada à performance.

No desempenho da “dança que lhe sai da alma”, forma carinhosa como designa a dança oriental, ressalta o papel fundamental da orquestra, dado ser esta dança “a tradução clara daquilo que se ouve”, uma forma interpretativa onde não há nada fora da música, onde “não há espaço para a mentira”.

Tendo visto o seu trabalho validado pelo público egípcio, aquele que possui o mais elevado grau de exigência e perante o qual, enquanto estrangeira, se tem que provar ser muito superior às bailarinas nacionais, Joana sente-se a viver um “estado de graça” e só deseja poder continuar a consolidar, ainda que com muito esforço, a sua carreira.

Reconhece hoje que os seus objectivos actuais se distinguem daqueles com que chegou ao Cairo. Construída, de forma bem sucedida, uma identidade artística num país em que o melhor elogio, como tão frequentemente acontece, é ser tomada por uma bailarina egípcia - “eles sabem se eu sou egípcia ou não assim que entro em palco, pela forma como deixo cair o corpo” – Joana Saahirah é um caso à parte no mercado Egípcio, distingindo-se pelo rigor, vestuário, tipologia física e repertório musical interpretado onde revisita alguns clássicos da música oriental, entre eles Umm Kolthum – a “voz do Egipto” falecida em 1975 – , distanciando-se assim daquilo que o restante mercado oferece.

Assumindo-se como uma “mulher de palco” Joana considera o Egipto como território de descoberta constante onde pretende continuar a consolidar a sua carreira e a preparar dois projectos, um grande espectáculo de dança oriental para digressão internacional e a elaboração de um livro sobre dança oriental centrado na sua experiência pessoal e profissional. Enquanto tais projectos não virem a luz do dia as actividade e vivências de Joana Saahirah poderão ser seguida através de um diário no seu website – www.joanabellydance.com - e a sua mestria partilhada através dos workshops que brevemente promoverá em Lisboa, nos dias 5 e 6 de Abril, no Espaço Pro-Dança e no Porto, nos dias 12 e 13 de Abril,.no Espaço Total Fitness.

(artigo publicado na edição de Março 2008 da revista “Magazine Artes”)

- Texto e fotografia de Susana Paiva

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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