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Hugo Canoilas : Portugueses de Diáspora

Redimensionar o humano

quarta-feira 7 de Novembro de 2007, por Susana Paiva

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Aos 29 anos, quatro dos quais passados fora de Portugal, Hugo Canoilas é um dos mais surpreendentes e interessantes artistas da sua geração. Na sua obra, expressa em múltiplos media, há uma rebeldia, um inconformismo e um desejo de liberdade que espelham bem a sua criatividade e generosidade enquanto artista. Um artista completo que, recorrendo à pintura, escultura, vídeo, fotografia, instalação ou performance, cria territórios e novas espacialidades nos quais repensar o humano é epicentro.


Foi o desejo de mudança que, em 2003, levou Hugo a deixar Portugal e a instalar-se em Budapeste onde viveu durante 8 meses. Foi ainda esse perpétuo desejo que o fez seguidamente rumar a Londres onde viveu durante 4 anos, antes de recentemente regressar à Hungria. Nesta diáspora encontrou a “situação privilegiada, uma distância que ajuda ao pensamento crítico”, um “distanciamento e simultâneo envolvimento” que o obrigou a crescer enquanto homem e artista.

Em Londres, onde, no Royal College of Arts, concluiu um mestrado em Fine Arts, deparou-se com uma cidade dura onde “as coisas da vida real são as mais difíceis”. Um novo universo vivencial e criativo que despertou em si “uma adrenalina natural” que faz parecer “muitos outros sítios lentos e confortáveis”. Foi nesta cidade que sentiu a urgência de, repensando o binómio capitalismo/democracia, acordar o seu “lado político” traduzido na busca artística de um “grão de humanidade”.

Flâneur incansável, Hugo transformou as ruas de Londres numa extensão do seu atelier, um espaço em permanente movimento onde urge “redimensionar o humano”.

Com trabalhos entre abstração e figuração, já viu o seu trabalho definido como pós-minimalista, embora o desejo de não ser catalogado continue mais forte do que o de encontrar uma categoria onde se insira. Recorrentemente, e de uma forma quase desconcertante, não hesita em quebrar a imagem que o público faz da sua obra e em arriscar nova formas e estilos de expressão. Reinvidica, com grande mestria, o direito ao ócio - por oposição ao negócio - lutando por uma liberdade de reflexão e expressão que lhe permita “continuar a fazer aquilo que mais gosta”, o “chegar à essência”, numa permanente valorização das qualidades poéticas e políticas das suas obras.

Valorizando o processo de trabalho conducente à produção da obra, confessa “trabalhar até encontar uma evidência” e está convicto de que “cada trabalho que faz molda a forma de fazer o seguinte”.

Das raízes portuguesas herdou um forte sistema de valores que o levam, recorrentemente, a exaltar o valor do trabalho, que nunca o assusta, e a apreciar a mãe terra, com a qual possui uma forte ligação.

Admite ser influenciado pela corrente existencialista, citando frequentemente Fernando Pessoa, e afirmando “encontrar na reflexão do eu o espaço priveligiado para encontrar o outro”. Entre os seus desafios diários encontra-se a luta para “tentar fugir aos limites do seu eu”, assente numa constante necessidade de reinvenção e de contribuição, à sua escala, para a mudança de um sistema artístico onde “se deixou de dar espaço à falha e onde havendo falha se morre.”

Apesar de ter já trabalhado com diversas galerias, optou, conscientemente, por assumir o risco do exercício de uma liberdade que lhe permite agora sonhar com uma “comunidade de independentes” ou com uma relação de confiança total entre o artista e os seus representantes. Um certo “acto de fé” que Hugo preconiza no seu trabalho e deseja projectar na relação com o outro.

Enfatizando a relação humana, Hugo Canoilas pretende criar uma relação excepcional com o outro - esse que “ao ser diferente dá razão à indivualidade do seu ser” -, defendendo a prática da arte como intensificadora da vida, vida essa que modela a Arte que pratica.

Aprendeu, com o tempo, a saborear aquilo que faz e a distanciar-se daquilo a que chama o “pintor macaco” – um virtuoso da técnica que se dedica a mostrar as suas habilidades na pintura.

Não obstante a sua formação de base, em pintura e artes plásticas na Escola Superior de Arte e Design nas Caldas da Rainha, a obra de Hugo Canoilas há muito ultrapassou o media da pintura, espalhando-se livre e caleidoscopicamente através da escultura, fotografia, vídeo, instalação e performance, tão à imagem das imprevisíveis sonoridades dos discos de free jazz que diariamente o acompanham.

Foi ao som de “Beauty is a rare thing” e de “A Love Supreme”, dos essenciais Ornette Coleman e John Coltrane, que Hugo preparou três dos seus últimos trabalhos, encomendas que semearam, de Janeiro a Março, obras de Londres a Murcia, passando pela Alemanha, naquela que Hugo refere como sendo “ a maior responsabilidade que teve até ao momento”, no Frankfurter Kunstverein.

Em Outubro do passado ano, na “Workplace Gallery” em Newcastle, Hugo apresentou a público “Propaganda”, uma exposição cruzando o “formal e o político”, onde uma série de murais, “herdeiros de um certo realismo social” - aos quais “retirou a mensagem política, mantendo o lado formal das pinturas”, aproximando-as assim das suas pinturas abstractas - se conjugavam com peças herdadas de uma certa “minimal art”. Uma experiência extraordinariamente gratificante, que marcou uma nova étapa no seu trabalho, e que, ao longo das 3 semanas de instalação in situ, revelou a Hugo Canoilas um companheirismo e solidariedade por parte de jovens artistas locais que voluntariamente o ajudaram a montar a exposição. Tudo boas razões para, ao ver o olhar feliz do Hugo, exclamar “És um Humanista” e ele, gentil como sempre, responder “Pois sou!”.

- Texto publicado na edição de Janeiro de 2007 da revista “Magazine Artes” e revisto em Junho 2007
- Texto e fotografia de Susana Paiva
- Imagens da exposição “Propaganda” gentilmente cedidas pelo artista

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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