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Há um pequeno cavalo...

Camargue

domingo 29 de Junho de 2008, por Susana Paiva

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A capa do livro, cartonada, como recordo, era colorida (a aguarela ou a lápis?), tal como o são as cores dos sonhos de infância.


O azul muito azul, líquido e primeiro, de um céu sem horizontes, varria as planícies de um verde luz onde se derramavam aventuras sem rédeas. Assim: num galope sem freio, ao sabor das indomáveis crinas do vento. Depois, as camisolas laranja e os sorrisos na garupa, as mãos num abraço de medo e ânsia ao pescoço branco e forte, graciosamente musculado, e as emoções cruzando, num passo largo, paso doble, dir-se-ia, as planuras do Delta do Ródano. Foi assim durante anos, crescendo, linha a linha, parágrafo a parágrafo, numa corrida de aventuras sem fim, sem limites e sem fronteiras, para onde o rústico, forte e belo Crin Blanc levou uma geração inteira. René Guillot era o cavaleiro da palavra, o cowboy ao serviço da aventura apetecida, o pequeno e bravo Crin Blanc o intérprete e protagonista da aventura. Foi assim, em indomável sede de leitura, que conheci o pequeno e voluntarioso Camargue.

Hoje, não sei se haverá ainda crianças que se deixem levar a trote da imaginação do escritor, não sei se conhecerão ou terão, ao menos, ouvido falar do pequeno cavalo branco outrora também requisitado pelas aventuras maiores (e de mais largos teatros) de Júlio César. Mas se a traça e a verve do belo animal não resistiram aos muros de silêncio que sobre o branco das páginas por regra se abatem – como uma águia sobre a presa, ou como touro sobre o seu oponente –, a verdade é que rente às terras planas e húmidas da Camarga o silvo dos seus cascos continua a ecoar enquanto tambor do seu frémito de liberdade. Porque o seu resfolegar se encontra lá desde a infância dos tempos, porque o seu odor é o que cobre a pele da paisagem, porque o seu olhar ali se demora para além do próprio ser.

Ali, há um pequeno cavalo, no recorte da madeira (onde por cima a tarde se desenha em tons de adeus), que parece brincar com as nuvens, disputando-lhes geometrias ao ar a golpes de fantasia e ilusão, enquanto os mais velhos, os progenitores, nas fotografias ao lado, emprestam o porte e a graça, a robustez e o orgulho, aos homens que os conhecem e amam como não amam nem conhecem as suas mulheres.

Talvez porque os respeitem, porque os venerem, ou porque, simplesmente, temam o seu olhar estranhamente dócil e selvagem, aquele seu tão peculiar modo de olhar, vazio e distante, secreto e longínquo, presente e ausente, vindo de lugares e tempos aos quais os homens apenas em sonhos conseguem chegar. Certamente por isso descansam os arreios no frio da parede, por isso se enrolam, como cobras, as cordas na cerca, por isso domar não é o verbo do seu estar, por isso os cavaleiros parecem não desejar quebrar o seu vínculo original à terra, por isso as selas não cumprem a sua função de oprimir, quando muito a de servir. Para o touro, seu irmão de sempre, a liberdade tem o tamanho de um círculo – arena onde, em países próximos, se coroa o seu sangue em festas de cor e sofrimento –, para o Camargue, a liberdade é uma linha e conhece-se pela distância sem fundo do olhar.




- Fotografias de Susana Paiva
- Texto de Pedro Teixeira Neves

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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