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Carlos Brito : Portugueses de Diáspora

A Arte da Resistência

quarta-feira 5 de Março de 2008, por Susana Paiva

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Desenhador de imprensa, possuidor de um humor caústico, Carlos Brito - Brito como é conhecido pelos seus leitores – é um caso raro de resistência e luta pela verdade e liberdade no panorama actual da imprensa francesa.


Um autor que, através da sua obra, traça um irresistível e impedioso retrato do mundo ao qual dificilmente se poderá ficar indiferente.

Foram razões “político-militares” as que, em 1963, levaram Carlos Brito a partir de Lisboa rumo a Paris. Na génese da partida contava-se a intenção de não cumprir o serviço militar nas ex-colónias mas a mudança acabaria por ser precipitada pela existência de uma denúncia à PIDE que o identificava como membro do Partido Comunista Português. Para trás ficavam 20 anos vividos na sua cidade natal, uma formação indesejada em estudos comerciais, a necessidade de trabalhar precocemente num banco, de forma a auxiliar economicamente a família, e quatro anos de resistência anti-fascista.

Para Carlos Brito partir constituíu de certa forma uma libertação de uma vida e de um país que o espartilhavam entre “os muros de Espanha e do Atlântico” e que lhe permitiria sonhar com uma maior realização profissional, no entanto os primeiros anos em França estariam longe de se revelar um paraíso de liberdade. O seu priveligiado estatuto de empregado bancário, com 36 horas de trabalho semanal, dava então lugar a um quotidiano de nove horas e meia de trabalho numa fábrica seguido de duas horas de aulas na Alliance Française. Um preço elevado a pagar pela liberdade e que Brito, com o seu contagiante humor, reconhece não ter sido propriamente “uma melhoria de estatuto social”.

Desde sempre interessado pelo desenho, mas sem qualquer formação artística, Brito ainda hoje recorda o seu primeiro desenho, feito aos “dois ou três anos”, na caderneta militar do seu pai, proeza criativa que se viria a propagar durante anos pelas paredes do quintal. Inibido de frequentar o ensino artístico em Portugal, por questões de ordem económica, Brito acaba por enveredar, em Paris, por uma formação em Sociologia na Universidade de Vincennes. É assim enquanto sociólogo que regressa em Julho de 1974 a Portugal, “acompanhando a revolução como uma festa” e trabalhando na Comissão de Extinção da ex-PIDE/DGS.

Foi este regresso a Portugal, pós revolução, que acabou por se revelar o motor ideal para o desenvolvimento da profissão que ainda hoje abraça. Nos dezassete meses que ficou em Portugal Brito ocupou os serões trabalhando como cartoonista para “jornais de boa tradição hoje desaparecidos - “República,” “Diário de Lisboa” e “Sempre Fixe” - dando azo ao seu gosto pelo desenho e pela informação. Uma experiência que o marcaria e que o motivaria a organizar um “pressbook” para apresentar à imprensa parisiense por altura do seu regresso a França.

Foi assim que Carlos Brito começou a sua carreira como desenhador de imprensa, fazendo-se astuto observador da actualidade, munido de uma implacável capacidade de análise e acutilante capacidade de síntese a traços de caneta. Em trinta anos de actividade viria a colaborar com um grande número de publicações entre os quais se elencam o "L’Unité", "Politique-hebdo", "La Gueule Ouverte", "Libération", "Le Monde diplomatique", "Les Nouvelles Littéraires" e "L’Événement du jeudi". Hoje os seus desenhos são presença habitual no “Le Monde” e no “Le Canard enchainé”, publicaçoes onde colabora ha mais de vinte anos.

Nos seus desenhos, maioritariamente a preto e branco, se espelha o estado do mundo. Naqueles que são publicados se admira, mais do que a sua expressão técnica, uma enorme capacidade de comunicar o mundo em que vivemos, levantando, sob pistas de humor, verdadeiros motivos de reflexão sobre os nossos dias. Os outros, aqueles que ficam nas gavetas dos editores por serem considerados demasido fortes, eventualmente inconvenientes, traduzem ainda com maior agudez as suas opiniões. São crónicas visuais altamente inflamáveis que soltam, sob a forma de gargalhada, uma mundividência que recusa a normalização do olhar e defende o espírito crítico de cada um dos seus leitores. Um precioso trabalho de um resistente que, além de anti-militarista e de anti-fascista, se opõe também à ditadura editorial da imprensa francesa criando com as suas obras verdadeiras bolsas de liberdade e irreverência.



(artigo publicado na edição de Dezembro 2007 da revista “Magazine Artes”)

- Texto e fotografia de Susana Paiva
- Desenhos gentilmente cedidos pelo autor

Susana Paiva

www.susanapaiva.com



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